MPE revela que ex-deputado recebeu propina por parentes; filha ganhou Pajero de empresa de ônibus

MPE revela que ex-deputado recebeu propina por parentes; filha ganhou Pajero de empresa de ônibus

Pedro Satélite ainda recebeu mais de R$ 330 mil em passagens de ônibus.

Diego Frederici
Folha Max

Reprodução

O suplente de deputado estadual em Mato Grosso, Pedro Satélite (PSD), teria recebido R$ 332,4 mil em “cortesias” de passagens de ônibus do Grupo Verde, entre os anos de 2013 a 2018. Ambos são alvos da 3ª fase da operação “Rota Final”, do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), deflagrada no Estado na última sexta-feira (14).

Segundo as investigações, Pedro Satélite, ao lado do deputado estadual Dilmar Dal Bosco (DEM), teria feito “lobby” (exercido pressão política, utilizando os poderes do mandato), para “barrar” a concessão do transporte intermunicipal de passageiros em Mato Grosso. Até 2018, as viações de ônibus operavam no Estado sem regulação, por meio de contratos precários.

Pedro Satélite, que também foi deputado estadual entre os anos de 2013 a 2018, junto a Dilmar Dal Bosco, integrava a Comissão Especial de Transportes da Assembleia Legislativa de Mato Grosso – meio do qual utilizaram para colocar obstáculos na concessão do serviço. O negócio visa a implantação do Sistema de Transporte Coletivo Rodoviário Intermunicipal de Passageiros do Estado de Mato Grosso (STCRIP/MT).

“Os deputados Dilmar Dal Bosco e Pedro Inácio Wiegert integraram a Comissão Especial de Transportes da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL/MT), nas condições de Relator e Presidente, que foi criada em 27.8.2015, e buscaram inviabilizar o procedimento licitatório referente à implantação do novo STCRIP/MT […] e, por conseguinte, legitimar a exploração em caráter precário, valendo-se inclusive de estudo técnico, relatórios conclusivos e pareceres financiados pela organização criminosa”, diz o Gaeco.

As investigações revelam que os dois parlamentares, o empresário Eder Augusto Pinheiro – proprietário do Grupo Verde, dona de várias empresas de ônibus que realizam o transporte intermunicipal de passageiros -, e também o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário de Passageiros do Estado de Mato Grosso (Setromat), Júlio César Sales de Lima, estavam por trás do lobby contra a concessão.

Em relação a Pedro Satélite, o Gaeco conta que Eder Augusto Pinheiro ofereceu “cortesias” da ordem de R$ 332,4 mil em passagens de ônibus. O valor seria suficiente para realizar 1.108 viagens com custo de R$ 300 cada.

A “pressão” contra a concessão do sistema de transporte público intermunicipal de passageiros, no entanto, teria começado antes de Pedro Satélite assumir como parlamentar. A investigação aponta que em 2011, quando ainda era suplente, o ex-deputado estadual recebeu uma propina de R$ 147,6 mil de Júlio César Sales de Lima, representante do Setromat. Os recursos ilícitos tinham origem no Grupo Verde.

FAMÍLIA NO ESQUEMA

Além das “cortesias” e da propina recebida em 2011, o Gaeco revela que Pedro Satélite utilizou membros da própria família para receber mais recursos ilícitos. De acordo com as investigações, entre os anos de 2014 e 2018, o ex-parlamentar recebeu 1,1 milhão do Grupo Verde, que repassou parte dos recursos (R$ 609,9 mil), ao filho do ex-deputado estadual, Andrigo Gaspar Wiegert, e também a uma mulher identificada como Glauciane Wiegert, que teria recebido R$ 259 mil.

O Gaeco se refere ao ex-deputado estadual pelo seu nome de batismo – Pedro Inácio Wiegert.

“Pedro Inácio Wiegert, no exercício de suas funções parlamentares [deputado estadual e suplente], teria recebido, aproximadamente, R$1.103.953,46, entre os anos de 2014 a 2018, repassados pelo Grupo Verde ao seu filho Andrigo Gaspar Wiegert (R$ 609.946,23) e Glauciane Wiegert (R$259.007,23)”, diz trecho dos autos.

As investigações narram, ainda, que uma filha de Pedro Satélite, Marciana Wiegert Alonço dos Reis, recebeu até um carro do Grupo Verde de “presente” – uma Mitsubishi Pajero Sport HPE, (2007/2008), avaliada em R$ 35 mil.

ROTA FINAL

O Gaeco deflagrou na última sexta-feira a 3ª fase da operação “Rota Final”. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas residências do deputado estadual Dilmar Dal Bosco (DEM), do suplente Pedro Satélite (PSD), e de uma assessora parlamentar, suspeitos de envolvimento no esquema.

Os agentes policiais também deveriam ter cumprido uma ordem de prisão preventiva contra o empresário Eder Pinheiro, dono da Verde Transportes, que seria o líder da organização criminosa, mas ele está foragido. Já o empresário Júlio César Sales, representante do Sindicato dos Empresários do Setor de Transporte Intermunicipal de Passageiros (SETROMAT), esta utilizando tornozeleira eletrônica.

As diligências também cumpriram uma ordem de sequestro de bens dos investigados até o montante de R$ 86 milhões, abrangendo vários imóveis, duas aeronaves (aviões), vários veículos de luxo, bloqueio de contas bancárias e outros bens necessários ao ressarcimento do prejuízo acarretado pela prática dos crimes.

A suposta organização criminosa atuou para “barrar” a concessão do transporte público intermunicipal de passageiros em Mato Grosso – um negócio de mais de R$ 11,25 bilhões. Sem a licitação, as empresas que operavam o sistema por meio de contratos precários não possuíam regulação do Estado, ou seja, cobravam o preço que queriam, e ofereciam os serviços dos quais estavam “disponíveis” a prestar.

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